Guerra Mundial Z – Uma história oral da Guerra dos Zumbis
outubro 31, 2016 305 Visualizações

Guerra Mundial Z – Uma história oral da Guerra dos Zumbis

Antes de começar: o livro Guerra Mundial Z não tem nada, com uma grande ênfase no nada, a ver com o filme de Brad Pitt. Acho que dentre todas as adaptações que eu já vi, é a que mais foge do material original. Nem os zumbis são os mesmos. Deixando isso claro, vamos em frente.

Max Brooks, o autor.

Max Brooks, o autor.

Eu não sou muito fã de histórias de zumbi. Para ser sincero, nunca naveguei na onda de popularidade que eles tomaram faz alguns anos. The Walking Dead nunca foi tão interessante. Então foi com certo nível de indiferença que peguei o livro de Max Brooks, Guerra Mundial Z, para ler. Vocês não imaginam a surpresa que tive ao ler o livro, e realizar que não é apenas mais uma história de zumbis, mas sim um olhar sério e astuto para os próximos 50 anos de política global, usando um surto de zumbis como plano de fundo das mudanças drásticas que podemos sofrer no futuro e com mal preparados estamos para elas. E acima de tudo isso, mais do que qualquer história de zumbi, Guerra Mundial Z é uma belíssima história de como nós, como humanos, podemos fazer coisas que são belas e terríveis, e como podemos, quando juntos, sobreviver e por fim, prevalecer.

Guerra Mundial Z é um livro inteligente. Alias, em certos momentos, é muito inteligente, quando captura as diferentes reações ao redor do mundo e como as nações lidariam com a ascensão dos mortos. Os primeiros relatos supostamente ocorrem apenas cinco ou dez anos a partir da época que o livro foi publicado (2008), começando como uma série de focos isolados em aldeias da China. Conforme ela se espalha pelo terceiro mundo, pouca importância dão os grandes poderes do primeiro, ecoando suas atitudes com a proliferação de doenças reais. Quando eles percebem o perigo, ele já esta batendo a sua porta, incontrolável. No mundo de Brooks, as agências de inteligência ocidentais até conseguem pegar pistas do que está acontecendo em relação a tal vírus misterioso, e portanto deduzir o que fazer enquanto a situação era controlável. Entretanto, seus memorandos e documentos foram em parte ignorados por razões políticas (zumbis?!), em parte esquecidos na gigantesca burocracia de um mundo pós Guerra Fria.

Guerra Mundial Z é um romance com um alcance verdadeiramente global; Brooks não só aborda como os Estados Unidos lidariam com tal problema, mas como os povos rurais do sudeste da Ásia, as terras de pobre infra-estrutura da Rússia e mais, e especialmente como cada sociedade combateria a epidemia de formas ligeiramente diferentes, alguns com mais sucesso do que outros. Por exemplo, Brooks explica que lugares como a Índia, a densidade populacional é muito alta para salvar qualquer coisa. Ela e países semelhantes praticamente deixam de existir no decorrer da guerra, com quase toda população dizimada por zumbis ou por todos os problemas pós apocalípticos, de saúde a violência. Outros países, por ironias do pré guerra, sobrevivem e saem do conflito como grandes potências. Cuba por exemplo, por viver com uma anacrônica ditadura comunista, fechou suas fronteiras de forma sem paralelos, e aos poucos foi liberando refugiados dos Estados Unidos nas ilhas. Esses refugiados, aos poucos, trouxeram para a ilha uma doença (para comunistas) muito pior do que zumbis: a ideia da liberdade. Uma revolução não violenta acontece e Cuba emerge da guerra como uma próspera nação capitalista.

Israel vence a guerra contra os zumbis por causa de sua história nacional. Depois de milênios de perseguição, o estado judaico foi o único a perceber a ameaça do vírus cedo, e fechou suas fronteiras, entregando Jerusalém e os outros territórios para os árabes, embora tenha aceitado abrigar qualquer palestino. Na Europa, as ilhas britânicas sobreviveram pelas conveniências do mar, e dos diversos castelos e armas medievais ainda sobreviventes. Sobre a liderança da Rainha Elizabeth em Windsor, os britânicos aos poucos reconquistaram sua nação dos mortos.

India e Paquistão entraram em uma guerra nuclear quando o “Grande Pânico” começou. Grande Pânico é o nome dado ao período que o vírus se tornou publico e os grandes ataques aconteceram. Nações foram destruídas aqui, povos inteiros se lançaram aos mares. Por muito tempo foi assim, até que aos poucos, as nações começaram a se organizar e se preparar para o contra ataque.

O livro é marcado por histórias extremamente pessoais dos sobreviventes. Cada uma escrita habilmente, tocante e terrível. Nos momentos finais, porém, um clima de triunfo vai tomando parte, ainda que melancólico pelas perdas sofridas. A raça humana se organiza e prevalece. A geopolítica do mundo está mudada. Porém, nós sobrevivemos.

É um livro tão fantástico, que eu nem sei por onde começar: é extremamente agradável para amantes de drama pessoal, e também espetacular para os amantes de análise política. Bem equilibrado entre as histórias dos sobreviventes e da política mundial, o livro agrada todos. E é claro, tem sua justa quantidade de zumbis sendo mortos das formas mais criativas possíveis.

Não posso ressaltar como recomendo o livro para todos, até para quem não gosta de histórias de zumbi. Guerra Mundial Z é muito maior do que isso.

Sobre o Autor:

Matheus Dias
Matheus Dias 20 resenhas

É estudante de Relações Internacionais e PhD em dar palpite sobre a terra da rainha. Se Harry Potter fez dele um leitor, Star Wars o batizou como nerd. Estrangeiro às praias do Rio de Janeiro, pode ser constantemente encontrado no Pub Irlandês mais proximo de casa.

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